as paredes do meu velho quarto
tentam adormecer-me com estórias de seus amantes e com elas, sigo por
eras distantes e me perco em sonhos de amores idos, de velhos traídos,
de jovens amantes, de mortes, de glórias,de crucificados, de tarados,
de vadios, de assassinos, de ladrões,de velhos cafetões, e vim a
saber-me então seu único habitante solitário.
na escura noite, ouço,
das antigas sacadas, de casas carcomidas, gritos e lamentos do s que
vivem sós. e consigo, do quarto, ouvir os frios passos destes homens
mortos que andam na noite sem os escutar, e os gritos ecoam, perdidos no
espaço,sem que alguém os queira tentar entender, e seguem fingindo, que
a vida e boa, que os gritos são cantos, a os embalar, e eu que entendo,
todas as frases loucas de todas estas bocas, que gritam, que pedem,
imploram carinho, não posso sair do meu velho quarto, estou só,
trancado, com meus cadeados. tento os socorrer, mas como os atender, se
vejo que os gritos, que gritam na noite, por sobre as sacadas, nada são
que ecos, de meus próprios gritos, aflitos, aflitos, sem nada dizer.
Paulo Nunes
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